J P Proença


A GATA

                    A sua personalidade

        Chama-se Bola Maria e deve a sua integração na família à presença dos meus dois miúdos relativamente aos quais pensei que seria interessante a convivência.

        Hoje, juntamente com os periquitos, faz parte integrante da família sendo realmente uma Bola Maria Rodrigues Proença!

        Como um verdadeiro gato, a Bola Maria tem a sua vida própria, imbuída de uma independência que, à partida, não pareceria compatível com a assunção de animal doméstico. Mas ela aí está: dócil e independente.

                    O que pensará um gato ?

        Com certeza que não distingue a água benta da água normal!

        Será que pensa? Será que se preocupa com a sua existência e com a existência de quem a pensou? E quanto à fluidez do tempo?

        Nunca conversámos verdadeiramente sobre este assunto! Julgo mesmo que ela deliberadamente se faz de despercebida quando abordada sobre questões relativamente às quais tem uma posição muito firme.

                    O que poderíamos discutir

        A partir de Descartes, o ‘penso, logo existo’ passou a ser uma evidência e, desde uma leitura que fiz na diagonal aos livros ‘O estrangeiro’ e ‘O mito de Sísifo’ de Albert Camus, passei a entender importante olhar em redor incluindo-nos nesse próprio redor. Além de uma postura salutar, é um óptimo remédio contra fundamentalismos.

        Quando se pensa em qualquer coisa, essa coisa, exactamente por ter sido pensada, passa a existir. E não é nada preocupante que não tenha existido antes de ter sido pensada, pois o pensamento é algo intrinsecamente presente. Contudo é de admitir que, para essa coisa, possa no entanto ser inquietante a cronologia da sua existência no seu ‘mundo’ (o nosso pensamento): Como terei aparecido? Como nasceu o meu mundo? Estará em expansão? E antes de nascer? O nada pode gerar a existência?

        Igualmente inquietante para as coisas pensadas, mas não para nós, seus pensantes, poderá ser a sua natureza: De que matéria somos feitas?

        Imagine-se agora que o pensador se inclui a si próprio no seu pensamento. Nada provavelmente de mais intrigante para as coisas pensadas do que conviverem com o seu criador aparecido exactamente no ‘mundo’ delas e à sua semelhança!

        E as coisas pensadas terão vontade própria ou não? Mas é claro que têm – o resultado do nosso pensamento nitidamente que se movimenta independente da nossa vontade.

                    O que estamos de acordo

        Pelo diálogo estabelecido entre nós (eu e a Bola Maria) chegámos à conclusão que nos encontramos no mesmo ‘mundo’ e, assim, não há dúvidas que o nosso Pensador é o mesmo.

        Existimos? Então fomos pensados.

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