J P Proença


Carta recebida de um admirador

Lisboa, 1 de Abril de 2004

Querida Bola Maria,

Acabei de ler alguns dos teus pensamentos através do teu sítio na internet. Logo me apercebi que se trata de um sítio quente e com um telhado espectacular, condições essenciais para que um qualquer nosso semelhante se possa enroscar (dando curso ao nosso apelo ancestral) e, num ambiente de paz e sossego, deixar fluir uma pata cheia de ideias.  Também foi notório que, embora veiculados por um ser humano amigo com quem partilhas a vida ao nível do pensamento e de alguns enlatados, se tratam na verdade de reflexões emitidas pelos neurónios que tão sabiamente escondes sob a tua linda pelagem.

Foi muito interessante receber tais doutas mensagens através da internet. Na realidade sempre senti este meio de comunicação como algo de extraordinariamente grandioso e de primariamente consumista. Numa perspectiva pensante, respira-se a essência do factor multiplicativo (mesmo que a ordem dos factores seja arbitrária...), a imensidão espacial e a celeridade temporal, em suma... insondáveis infinitos. Numa perspectiva bem mais comezinha, remete-nos para um estado de alma de navegante, no seio da abundância da água onde tudo nasce e, por mais voltas que dê à cauda, só me faz lembrar o mar que nunca termina lá ao longe e que está cheio de peixe, muito peixe...

Outro dia dei com um gato amigo, que costuma afanar uns “carapaus dele” dos cestos de umas varinas distraídas ali no fim da Rua de São Bento, a miar baixinho para com os seus pelos: - Será que se utilizar a internet, conseguirei apanhar sempre peixe graúdo? A pergunta pode parecer descabida, mas ele ficou com um trauma - digno da análise no zinco do telhado de um dos melhores psiquiatras da nossa espécie - na sequência de um dia se ter abarbatado a um belo cherne. Ele não conseguiu arrastar a promessa gulosa de almoço completamente desenlatado (um must neste início do terceiro milénio) de um dos cestos disponíveis para porto seguro, nem largou os bigodes já untados no contacto com tal desmedida criatura. Resultado: a humana de serviço deu-lhe com uma velha e ferrosa escamadeira (que poderia ser exibida num dos antiquárias do quarteirão acima) uma tareia de criar bichano. Agora já não tem a mania das grandezas, troca tudo por miúdos, dá graças pelo peixinho de cada dia e nunca mais se aproximou de chernes. Ah! Mas resta-lhe a esperança (para além da Rua) na internet de águas mais profundas...

Foi muito gratificante perceber que o diálogo constante que manténs com o teu amigo humano tem dado os seus frutos.  Os humanos já começam a tomar consciência  que partilhamos o mesmo mundo pensado, que somos consequência dos pensamentos do Pensador, objectos de uma ideia que permanece e se transforma. No futuro comungarão da simplicidade das razões porque as galáxias e os quasares transformaram o opaco hidrogénio molecular no actual Universo transparente e ionizado. Então, já acharão natural enroscar-se, como nós, numa atitude contemplativa e sabiamente agradecida pelo dom da vida, aliando o estar ao ser, em plena consonância com o Pensador.

Mas... e o peixe?

Com os mais respeitosos miaus do peito,

Thar Eco dos Santos e Alcântara

Carta enviada por intermédio do meu amigo de infância Jorge Ângelo.


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